4 enredos e uma conclusão: os sulamericanos não irão a passeio ao Catar
Futebol Interativo
Carregando...

10-11-22 |

4 enredos e uma conclusão: os sulamericanos não irão a passeio ao Catar

Compartilhe img

4 enredos e uma conclusão: os sulamericanos não irão a passeio ao Catar


A América do Sul terá 4 representantes na Copa do Mundo do Catar: Argentina, Brasil, Equador e Uruguai. Após a eliminação do Peru na repescagem para a Austrália, os sulamericanos deixam de ter o quinto participante (em 2014, foram 6 seleções, já que o Brasil era o país sede), algo que não ocorria desde do Mundial da Alemanha, em 2006.E o grande questionamento é quão afetadas as equipes serão pela ausência de confrontos com europeus durante este ciclo de preparação, já que a criação da Nations League, em 2018, praticamente zerou as opções de datas das seleções do Velho Continente. Ainda mais após a Copa do Mundo na Rússia que teve 4 europeus entre os semifinalistas. A prova final se inicia em menos de 30 dias quando a bola rolar e a análise dos 4 sulamericanos mostra diferentes histórias, mas apontando para nível de competitividade que não pode ser desconsiderado em nenhum dos casos. Vejamos as perspectivas e os desafios de cada um.

O renovado futebol equatoriano

Após a ausência no Mundial da Rússia, em 2018, o Equador garantiu a classificação para o quarto mundial de sua história (presente em 4 das últimas 6 edições) na penúltima rodada da eliminatória sulamericana. Mesmo classificado em campo, ainda teve que vencer a polêmica nos bastidores envolvendo o lateral Byron Castillo e as acusações sobre sua origem. Batalha vencida e o Equador enfrentará a seleção da casa, no jogo de estreia da Copa, além de Holanda e Senegal no Grupo A. Tradição, resultados recentes e performance naturalmente credenciam holandeses como favoritos, mas os equatorianos têm motivos para acreditar numa boa campanha no Catar e tentar avançar na segunda posição, mesmo contra a melhor seleção africana e com o apoio que a equipe catari receberá de sua torcida.

O grande destaque do time é Moisés Caicedo, meia do Brighton e peça chave na articulação de jogadas da equipe. O meia é mais um dos grandes valores que surgiram no ascendente Independiente Del Valle e a classificação para o Catar passa diretamente pelo trabalho de base que a equipe de Sangolquí vem fazendo há alguns anos. Investimentos na formação de jogadores e num modelo de jogo beneficiaram diretamente a seleção do Equador neste ciclo de Copa do Mundo. A renovação era completamente necessária diante do envelhecimento da geração que veio ao Brasil, em 2014, e após o fracasso no período 2015-2018, não conseguindo a classificação para a última Copa do Mundo.

O técnico argentino Gustavo Alfaro, que assumiu a seleção equatoriana em 2020, soube muito bem utilizar esta base. Formou uma equipe com muitos jovens - menor média de idade entre os 10 sulamericanos nas eliminatórias - e consolidou um estilo de jogo. Construção de jogadas iniciando com qualidade pelos zagueiros e com o volante Carlos Gruezo, participação ativa dos dois laterais (principalmente Estupiñan), que avançam com muita velocidade e recompõem a linha de 4 defensiva de forma eficiente; e que sem a bola, tem a marcação alta como principal característica, forçando o erro na saída de jogo do adversário. O time é organizado, forte fisicamente e combate, combate muito!

Apesar do provável desfalque do zagueiro Arboleda, a linha defensiva formada com Preciado (ou Byron Castillo), Félix Torres, Hincapié e Estupiñan, mesmo jovem, é extremamente sólida. E se completa com a experiência dos goleiros Hernán Galíndez ou Alexander Dominguez, ambos com 35 anos. Ainda não estando claro qual dos goleiros será titular no Catar. Se o time é bem postado defensivamente e trabalha bem o desenvolvimento de jogadas, o ataque não empolga. Apesar do segundo melhor ataque nas eliminatórias, ao lado da Argentina, com 27 gols, e só atrás do Brasil, fazer gols tem se tornado um grande desafio deste time. Dos 27, 19 gols foram jogando em casa, incluindo a goleada de 6 a 1 na Colômbia, evidenciando assim a baixa média de gols da equipe por jogo. Mesmo o experiente Enner Valencia não tem atendido às expectativas. Seus principais companheiros de ataque Michele Estrada e a grande promessa Gonzalo Plata (outra cria do Del Valle) também não se destacam por muitos gols.

E um recorte nos últimos 5 amistosos após se garantir na Copa, reforça tanto a consistência defensiva quanto as dificuldades na frente. Foram 3 empates em 0 a 0 com Japão, Arábia Saudita e México (seleções que estarão no Catar) e duas vitórias de 1 a 0 contra Nigéria e Cabo Verde (que não se classificaram para o Mundial). Caso queira igualar seu melhor resultado em Copas, que foi a classificação às oitavas de final, na Alemanha, em 2006, ou até mesmo superar este patamar, o Equador precisará transformar essa organização em bola na rede. De qualquer forma, é uma geração que vem adquirindo experência e bagagem, já premiando os equatorianos com um terceiro lugar no Mundial sub-20, em 2019; após vencer a Copa América sub-20 no mesmo ano. Gonzalo Plata, Jose Cifuentes, Jackson Porozo e e o goleiro Ramírez são alguns nomes presentes nestas competições e que estarão defendendo o Equador no Catar. As perspectivas são muito positivas também para os próximos ciclos, principalmente se todo esse foco em planejamento e estrutura for mantido pelos clubes e federação do país.

O início da nova Era Celeste

Foram 15 anos sob comando de “El maestro” Óscar Tabárez e que pode ser considerada como a “ressurreição” da seleção uruguaia como grande força do futebol mundial. Um título da Copa América e boas campanhas em 2010, 2014 e 2018, sendo o auge a honrosa quarta posição na África do Sul. Mas a era Tabárez chegou ao fim em Novembro de 2021 com a Celeste correndo risco de não se classificar para a Copa do Mundo deste ano. A seleção estava em sétimo lugar e restavam 4 jogos nas eliminatórias. A tarefa era difícil e a ausência no Catar era iminente.

Diego Alonso foi o escolhido para missão e cumpriu com êxito. Com 4 vitórias nas últimas 4 rodadas, o Uruguai confirmou sua presença no Oriente Médio e terá a companhia de Portugal, Gana e Coréia do Sul no grupo H. O técnico recuperou a tradicional garra e competitividade uruguaia, além de conseguir dar uma nova dinâmica de jogo, mesmo não alterando tantas peças ou esquema tático em relação ao trabalho anterior, atestando assim que se tratava mais de um desgate do que falta de qualidade e bom futebol.

O Uruguai tem variações no tradicional 4-4-2, formação de sucesso das últimas Copas, mas sempre garantindo um grande equilíbrio no time na relação ataque/defesa. Já sobre nomes, a renovação uruguaia se iniciou no ciclo passado da Copa da Rússia, mas três nomes se destacaram com boas expectativas nos últimos anos e traziam esperança para uma grande Copa no Catar. Os nomes são Ronald Araújo, Fede Valverde e Darwin Nuñez. E o “traziam” é usado, pois infelizmente Araújo se contundiu no amistoso contra o Irã, no final de Setembro, e provavelmente desfalcará os uruguaios no Mundial por conta de uma lesão na coxa. Mas há uma mescla interessante entre veteranos e novatos, sendo bons nomes em todas as posições e jogadores com uma boa rodagem no futebol mundial.

No gol, Sérgio Rochet parece alguns passos à frente do veterano Muslera. O goleiro do Nacional-URU tem tido a preferência de Alonso e após três Copas, o Uruguai deve ter a meta defendida por um novo goleiro. A base da defesa, se confirmada a contusão do defensor do Barcelona, muitas vezes utilizado como lateral direito na seleção, terá Guillermo Varela (ou Damián Suárez), Giménez, Godin e Mathias Oliveira. Com boas opções, como Coates e Cáceres e Viña, a defesa se mostra segura, talvez num patamar abaixo de outros Mundiais, mas não comprometendo a equipe.

No meio de campo, não seria um absurdo dizer que atualmente o principal nome uruguaio no futebol mundial seja Valverde. Incansável e extremamente versátil no Real Madrid, o jovem de 24 anos é o motor no início da construção e na contenção de jogadas do Uruguai. Ao lado de Bentancur, garante estabilidade para De Arrascaeta, De La Cruz ou Pellestrini possam ter mais liberdade e munir o ataque. E após anos o ataque uruguaio não terá a dupla Cavani-Suarez. Com a demora para definição do clube aonde atuaria, Cavani deve ser opção no banco e o titular, a sensação Darwin Nuñez. Após uma temporada espetacular no Benfica, o novo atacante do Liverpool não vem encantando na Premiere League como se esperava, mas mesmo assim deve ser o companheiro do Pistoleiro no ataque. O camisa 9 voltou ao futebol nacional, mesmo com muitas propostas e deve se despedir da seleção em Mundiais. Maior artilheiro uruguaio de todos os tempos, Luisito precisa de mais um gol no Catar para igualar histórico Óscar Miguéz, maior goleador do Uruguai em Copas do Mundo e campeão do mundo em 1950. As chances são grandes do atacante adicionar também este recorde à sua carreira.

O grupo H promete equilíbrio, mas o Uruguai é forte candidato a cruzar o caminho do Brasil já nas oitavas de final. Talvez não tenham forças para eliminar os brasileiros, mas não será o atropelo que ocorreu no último encontro, no ano passado, quando a seleção de Tite venceu com facilidade por 4 a 1. O futebol da seleção uruguaia está vivo novamente após superar o maior período de crise de sua história recente e em se tratando de Copa do Mundo, independente de qualquer “Era”, sempre merece respeito por parte de seus adversários.

O último tango de Messi

Lionel Messi anunciou que a Copa do Catar será seu quinto e último Mundial. Será a última chance do argentino conquistar a principal competição de seleções do planeta. Após bater na trave (ou nos erros de finalização de Higuain) com vice campeonato no Brasil, em 2014 e de uma campanha inconsistente da Argentina há 4 anos na Rússia, o atacante volta a ter esperanças de conquistar o tricampeonato para os argentinos.

Apesar das declarações recentes do camisa 10, não considerando sua seleção como favorita ao título, os números e o desempenho em campo apontam para algo diferente. A equipe defende a maior sequência de invencibilidade entre as seleções na atualidade. São 35 jogos, com 79% de aproveitamento (24 vitórias e 11 empates), com 63 gols marcados e somente 15 sofridos. E um número que impressiona é que em 21 destes jogos a equipe não foi vazada. A última derrota dos argentinos foi na semifinal da Copa América de 2019 para o Brasil, no Mineirão. E não se esquecer da quebra do jejum de títulos – após 28 anos – ao conquistar a Copa América em pleno Maracanã, contra o Brasil, no ano passado e de uma vitória acachapante de 3x0 contra a Itália, atual campeã da Eurocopa, pela Finalíssima, em Julho deste ano.

Mas muita coisa mudou para que chegassem ao cenário atual desde a derrota para a França nas oitavas de final, Copa da Rússia, por 4 a 3 - provavelmente no melhor jogo do torneio. A primeira e mais importante foi no comando do time. O técnico Lionel Scaloni assumiu a desorganizada Argentina pós Sampaoli, em 2018, e sob muitas suspeitas da imprensa e da torcida, afinal não possuía nenhum grande trabalho na carreira até aquele momento. O ex-lateral da seleção Argentina conseguiu algo que nenhum dos últimos técnicos conseguiu nos últimos: organizar o time defensivamente e extrair todo o potencial de seu ataque. O reconhecimento chegou e Scaloni teve a valorização de seu trabalho com a extensão do contrato até 2026, dando ainda mais moral ao treinador.

Com relação à defesa, a entradas de Emiliano Martinez no gol e de Cristian Romero e Lisandro Martínez como opções na zaga elevam o nível de enfrentamento e segurança argentina. Ainda contando com o experiente Otamendi e os bons laterais Tagliafico, na esquerda, e Montiel ou Molina, na direita, talvez o elo mais frágil na defesa. Se antes recheada de nomes questionáveis em seus goleiros e defensores, o sistema se tornou uma fortaleza de Scaloni. E o grande número de partidas sem sofrer gols só reforça este ponto.

Paredes tem um papel de destaque na seleção albiceleste. A versatilidade do volante da Juventus, dando proteção ao sistema defensivo, e também muitas vezes se colocando como a primeira peça na progressão da jogadas, ao se posicionar entre os zagueiros na saída de bola. A qualidade do meio de campo se complementa com De Paul e Lo Celso, também dedicados na composição defensiva e extremamente precisos na criação de oportunidades. Sem a bola, ainda ganham o reforço de Di Maria na pressão para recuperação da posse de bola. Dando liberdade assim para que Lautaro Martínez e Messi praticamente se preocupem apenas em atacar. La Pulga continua carimbando quase todas as bolas no ataque e mesmo com 35 anos, sua qualidade é inquestionável. Com gols ou assistências, vive o melhor momento pela Argentina. Enfim, o protagonismo que sempre foi esperado do camisa 10, mas sem um jogo totalmente em função de sua habilidade.

E Scaloni conta com muitas opções no meio para armar a segunda linha do 4-3-3 como Guido Rodríguez, Marco Acunã e Papu Gómez, garantindo o mesmo encaixe que a equipe necessita para manter a força defensiva e alimentar os 3 atacantes. E a jóia Julián Alvárez e os eficientes Dybala e Nicolás González permitem variações no posicionamento de Messi, fazendo assim que os argentinos se apresentarem com um dos mais completos arsenais no ataque.

Desde 2002, a Argentina não chega com um nível tão alto de favoritismo a um Mundial. E diferente da última Copa em território asiático, os argentinos se apresentam muito mais preparados para este Mundial. E também mais “leves”, ao diminuir a pressão por um troféu, com a conquista da Copa América. Arábia Saudita, México e Polônia não devem oferecer dificuldades no grupo C e os hermanos provavelmente irão avançar com 9 pontos. A torcida também está confiante em La Scaloneta, apelido dado à seleção nacional em referência ao nome do treinador, e a prova disso é que os argentinos são os primeiros a esgotar os ingressos da primeira fase. Querem garantir presença nos últimos espetáculos de Messi com a camisa de seu país. E a “última dança” do gênio pode lhe garantir a taça que falta em sua coleção.

As lições aprendidas de Tite

Os dois últimos amistosos contra Gana e Tunísia não podem ser considerados grandes testes para a seleção brasileira. Mas deixam claro que o técnico Tite chega melhor preparado ao Catar se compararmos com o Mundial da Rússia. O preparo está diretamente ligado a ter mais variações de jogo e realmente fazer valer “o campo fala”, famosa frase do treinador brasileiro. Após se reiventar durante as eliminatórias, após um período de pouco brilho e muitos questionamentos ao futebol apresentado, dificilmente o Brasil não entrará em sua estreia no Catar, com o seguinte time: Alisson, Danilo, Marquinhos, Thiago Silva e Alexsandro; Casemiro, Fred e Paquetá; Raphinha, Neymar e Richarlison. Quase todos unanimidades em suas posições neste momento. Mais importante que os nomes, são as variações que esta equipe consegue entregar e as opções no banco que faltaram em 2018, na Rússia.

No gol, zero problemas. Alisson, o provável titular, e Ederson figuram o top 5 de melhores goleiros do mundo há alguns anos e se revezam como melhor goleiro da Premier League. Questão de preferência e a meta estará bem protegida com o goleiro do Liverpool. A habilidade com pés, possível diferencial do goleiro do Manchester City não é um fator relevante no esquema brasileiro. A zaga deve ser formada por Thiago Silva e Marquinhos. Éder Militão corre por fora na briga pela titularidade e poderia oferecer mais velocidade ao setor, no lugar do veterano do Chelsea. Já Marquinhos é intocável e importante também nas bolas aéreas no ataque. A linha de defesa se completa com Danilo e Alexsandro. Os dois têm atuado como zagueiros na Juventus, o que explica a segurança defensiva do Brasil e o baixo número de gols sofridos (em 17 partidas das eliminatórias foram somente 5 gols). Tite sempre foi reconhecido por montar ótimos sistemas defensivos e consolidar isto na seleção pode aproximar o Brasil da conquista do hexa.

Apesar da formação com 4 defensores, com a posse de bola e com adversários que não atuam com a linha alta de marcação, um dos laterais forma uma linha de 3 e o outro se posiciona numa segunda linha, ao lado de Casimiro, criando assim a possibilidade do ataque em um bloco de 5 jogadores: Neymar e Paquetá pela esquerda e Raphinha e Fred pela direita, com Richarlison centralizado. Essa formação permite aproximações e triangulações no ataque, muitas vezes surpreendendo os adversários com superioridade numérica em relação aos defensores. E como esse movimento se inicia com um dos laterais se posicionando como zagueiro, abre espaço para a opção usada no amistoso contra Gana, em que Éder Militao atuou como lateral direito. A falta de bons laterais direitos traz essa possibilidade, seja com o defensor do Real Madrid, Marquinhos ou Ibañez, presente na última lista dos últimos amistosos.

O excelente Casemiro continua como jogador chave no esquema de Tite. O novo reforço do Manchester United cobre as subidas dos laterais, facilitando a recomposição defensiva. Soma-se a isto, seu poder de desarme. O volante é um dos melhores ladrões de bola do futebol europeu e possui um alto índice de passes certos, se tornando uma arma para ligações ao ataque a cada roubada de bola. O questionável Fred tem um papel que poucos valorizam, mas é um dos grandes diferenciais ao meio de campo de 2018. Não possui a qualidade de arremate de Renato Augusto ou o poder de infiltração na área de Paulinho, mas em contrapartida pressiona muito a saída de bola adversária e se aproxima como opção pela direita, na dobradinha com o ponta direito, permitindo a formatação 4-1-4-1 no momento ofensivo. Fabinho para o lugar de Casemiro e Bruno Guimarães como alternativa na vaga de Fred mantém um elevado patamar e principalmente mantendo a “funcionalidade” de ambos na equipe. Isto não aconteceu há 4 anos, já que Fernandinho possuía características distintas do suspenso Casemiro e sofreu com o ataque belga.

Chegando ao ataque, alguns nomes começaram a se destacar em seus clubes num curto período e Tite teve que se render. O principal talvez seja Raphinha, que chamou a atenção ainda pelo Leeds e simplesmente arrebentou em seus primeiros jogos com a camisa amarelinha. Habilidoso, com dribles em direção ao gol e inteligente para aproximações. Essa é uma descrição do atual atacante do Barcelona mas que cabe perfeitamente a Vinicius Jr, Antony ou Rodrigo, este último menos habilidoso, mas mais criativo no passe para o gol. Neymar dispensa comentários e vive um espetacular começo de temporada, suficiente para animar qualquer brasileiro. Possivelmente ultrapassará Pelé como maior goleador com a camisa do Brasil no Catar, são 4 gols de diferença atualmente (77 do Rei contra 73 do atual camisa 10 da seleção). Vale ressaltar também o entrosamento com Paquetá. O meia flutua no meio de campo, confundindo a marcação dos adversários e finalizando muito bem, se tornando um coringa no decorrer dos jogos para rearranjos no meio de campo.

Pensando nas variações, um teste surpreendeu muita gente (considerando o histórico do treinador, sempre priorizando o sistema defensivo). Contra Gana, Fred foi sacado e Vinicius Júnior foi para campo. Aproveitando a versatilidade de Paquetá para atuar como segundo voltante e usando Neymar como um meia foi desenhado um esquema muito ofensivo. Encanta, mas é ilusão pensar no Brasil jogando assim em condições normais. Perde-se o equilíbrio, que Tite tanto faz questão de manter em sua equipe. A ideia era entender o comportamento em uma possível necessidade pontual.

E uma outra alternativa de jogo envolve um nome aclamado pelos torcedores: Pedro. Teve sua oportunidade contra a Tunísia e não decepcionou, marcando um gol. O atacante deve estar entre os 26 convocados, mas só deve ir a campo em “situações de emergência”. No caso, quando a defesa adversária se encontrar extremamente fechada e as tentativas sejam bolas alçadas na área ou o pivô para que um segundo atacante se apresente para concluir no gol. Pedro é um 9 clássico, muito bom tecnicamente e pode sim ajudar em alguns cenários. Mas Richarlison e Gabriel Jesus estão muito à frente, pela experiência, nível de confrontos no dia a dia e recomposição no momento de defender. Vivem boa fase em seus clubes e o atacante do Tottenham vem de boas atuações e gols pelo Brasil, sendo assim a provável escolha de Tite para o início da Copa.

Outro aprendizado de treinador é relacionado à saúde dos jogadores. Após sofrer na Rússia, com falta de opções de alguns jogadores que já se apresentaram não estando 100%, dificilmente permitirá que este cenário se repita em 2022. Tite é muito competente e se mostrou estudioso desde os primeiros trabalhos de destaque na carreira. Não perderia a oportunidade de chegar mais preparado em uma segunda chance. Sua equipe chega mais entrosada, motivada e com uma espinha dorsal experiente, que já tem pelo menos um Mundial no currículo. Difícil encontrar argumentos para não colocar a seleção brasileira como uma das principais favoritas ao título - e isso que nem estamos focando friamente em números como porcentagem de aproveitamento, vitórias, gols marcados e sofridos. As lições aprendidas encontrarão um forte grupo G, na primeira fase, com Sérvia, Suíça e Camarões. Diferentes estilos para as variações serem testadas e refinadas para os grandes confrontos contra os gigantes europeus ou Argentina.

Após as reflexões sobre as 4 seleções, temos dois trabalhos que se iniciaram no decorrer das eliminatórias e que se organizaram rapidamente, mesmo enfrentando uma fase de renovação. O sorteio dos grupos ajudou para que possam brigar em grupos equilibrados e avançarem às oitavas. A partir daí, pode faltar experiência e gols ao Equador, e consistência defensiva e opções de banco ao Uruguai, mas não serão presas fáceis para nenhuma seleção. Já Brasil e Argentina estão nadando na mesma raia, e junto com outras favoritas como França e Alemanha. Dois trabalhos consistentes - um se encerrando e o outro garantido por mais um ciclo - e merecem ser esse protagonismo no Catar. Messi e Neymar em ótimo momento, seja com gols ou com assistências, tambem empolgam. O segredo pode passar pela correta utilização dos “15 ou 16 titulares” dos qualificados elencos de acordo com as dificuldades de cada partida. Porém é Copa do Mundo, torneio de tiro curto e um dia mais inspirado do adversário, um cartão vermelho, uma lesão no decorrer da competição ou um pênalti podem alterar o enredo, que naturalmente leva a um encontro do maior clássico sul-americano nas semi finais.

COMENTÁRIOS

COLUNISTA FI

Bruno Figueira Gomes Ver mais desse colunista

0 comentários

Essa publicação ainda não tem comentários.

Quero ser um colunista FI